terça-feira, 25 de junho de 2013

Revolução de 1964 - parte I



 Por acreditar que uma história sempre tem várias versões, dependendo do ponto de vista do leitor ou de quem a vivenciou e contou, resolvi abrir espaço aqui no blog para falar sobre esta importante passagem da construção do nosso país sob o ponto de vista do Exército Brasileiro, narrado em uma obra produzida pelo próprio, datada de 1972*,  chamada "HISTÓRIA DO EXÉRCITO BRASILEIRO - PERFIL MILITAR DE UM POVO " (capítulo 8).

Por acreditar também que o nosso passado explica nosso presente e é pré-texto do futuro, importante se faz lançar tantos olhares quantos se possam sobre a suposta verdade e extrair de tais olhares o que mais se apresenta como coerente. Importante neste processo é sempre buscar vários ângulos de observação e aqui venho apresentar mais um. Boa leitura!

*Peço atenção à data da obra que não foi escrita sob a égide da Constituição Federal de 1988.


"CRISE DE NOVEMBRO DE 1955

Após a morte de Getúlio Vargas, o Vice-Presidente Café Filho prestou juramento e tomou posse. Procurou organizar um ministério com grandes nomes nacionais. 

A chapa Juscelino Kubitschek-João Goulart vinha aureolada pelas estranhas alianças que associavam getulistas, comunistas e velhos políticos, trazendo o significado da herança emocional de Getúlio Vargas.

Eleitos Juscelino e João Goulart, a inquietação política começou a nascer, formando-se opiniões contraditórias quanto à posse dos candidatos no temor que surgia, em inúmeros setores, sobre os destinos da nação. Agravando ainda mais a situação, o Presidente Café Filho sofreu um distúrbio cardiovascular e passou o poder a seu substituto legal, o sr. Carlos Luz, Presidente da Câmara Federal. Os incidentes precipitaram-se nessa atmosfera de confusões. O general Teixeira Lott, demitido do posto de Ministro da Guerra, reassumiu o cargo e depôs, 11 de novembro de 1955, o Presidente substituto. O Congresso reconheceu a situação de fato que se criara, votou o impedimento do sr. Café Filho e elegeu o sr. Nereu Ramos, que governou, em estado de exceção, até 31 de janeiro de 1956, quando tomaram posse os eleitos.

Tumultuara-se gravemente a vida política do país, mas o equilíbrio da atitude do exército conseguira evitar a guerra civil. Garantira a observância dos princípios democráticos do regime, apesar das dissidências inevitáveis, tanto nos meios políticos, quanto no seio das próprias Forças Armadas.

GOVERNO DE JUSCELINO

Juscelino trazia para o governo ambicioso programa de realizações, incluindo a mudança da Capital para o planalto brasileiro, velho sonho, desde os primórdios da República . A situação econômica não era das melhores, e a consecução de seu programa de metas, onde se salientaram reconhecidas iniciativas, desenvolveu a inflação.

Não faltaram ao presidente aplausos pela construção de Brasília, em ritmo inédito, pelas grandes estradas e usinas hidrelétricas, mas o resultado das urnas nas subsequentes eleições demonstrou que o povo brasileiro não suportaria os inauditos sacrifícios de um desenvolvimento descontrolado e oneroso. O custo de vida atingia índices elevadíssimos, greves sucediam-se, e o comunismo parecia gozar de incompreensíveis imunidades, alastrando-se nos meios sindicais e estudantis, apossando-se do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, chegando mesmo a realizar tumultuado Congresso, no Edifício Glória, em plena Cinelândia, Rio de Janeiro, sem a menor interferência das autoridades legais.

Contrastando com as expansões otimistas do governo, a situação material precaríssima em vários setores, inclusive no exército, onde o equipamento obsoleto e os vencimentos deficientes não se coadunavam com os esforços e os despreendimentos que lhe exigiam na acelerada obra de desenvolvimento nacional a prazo fixo.

205 DIAS DE JÂNIO E SUA RENÚNCIA

Juscelino Kubitschek chegou ao final  de seu governo, garantido pelo sentimento legalista das forças armadas, mas sofreu o dissabro de assistir, sem a compensação que aguardava da obra empreendida, à consagração vitoriosa de seu adversário político, o sr. Jânio Quadros, eleito, esmagadora votação. É que se concentravam imensas esperanças nacionais nesse político que vinha do governo do Estado de S. Paulo, numa surpreendente trajetória de sucessos eleitorais e revelava qualidades excepcionais como líder e administrador. Não era homem de compromissos partidários e demonstrava, apesar de seu temperamento propício e imprevisíveis atitudes, a capacidade das decisões firmes e corajosas.

Jânio Quadros tomou posse, na suprema magistratura do país, 31 de janeiro de 1961, acompanhado do Vice-Presidente, João Goulart, que se reelegera, graças ao apoio dos comunistas e às dissenções entre as forças políticas democráticas.

O exército, como as demais forças armadas, mantinha-se na expectativa de  uma solução para os problemas nacionais, que, até então,  se agravavam continuamente pela instabilidade social e pela corrupção política e econômica.

Apesar das inúmeras iniciativas moralizadoras, a gestão de Jânio Quadros durou, efemeramente, sete meses. O Presidente renunciou a seu mandato, 25 de agosto de 1961, e abandonou Brasília, deixando, atrás de seu vulto inquieto, o caos político e econômico. Mais uma vez o exército, junto com as forças irmãs, assumiu responsabilidade da ordem interna, ameaçada por crise inesperada."
(a continuar...)