segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Equidade e Equilíbrio na Busca da Redução da Violência

Há 6 anos escrevi um pequeno texto expondo meu ponto de vista sobre o primeiro passo para reduzir a violência. Arrumando um material de estudo encontrei-o e achei interessante postá-lo. Hoje, aguardando atendimento no Fórum, aproveitei para ler um trecho da tese "Ética é Justiça", de Olinto A. Pegoraro, que aborda a questão da justiça social pela mesma ótica e será esta a postagem que virá após meu texto. Segue o texto:


A sociedade, desde seu surgimento, evoluiu significativamente. Essa evolução se deu nas mais diversas áreas que circundam os relacionamentos humanos: comunicação, transporte, comércio, família, leis...
Em que pesem tantos avanços, alguns antes inimagináveis, ainda se faz presente em muitas sociedades uma necessidade primitiva ao ambiente social sadio - a igualdade de condições. Tal igualdade existe a partir do momento em que são postos à disposição de todos, sem exceção, meios para alcançarem êxito pessoal e profissional frente a uma demanda natural do ser humano que é a vontade de poder tornar sua vida mais próspera e produtiva.
Seria imprudente afirmar que a falta de concessão de meios aptos a promover o autodesenvolvimento dos que fazem parte de camadas menos favorecidas, ou seja, a desigualdade de condições em relação às camadas mais favorecidas, é a maior causadora da violência que se apresenta hoje, porém, de outra forma não o seria apontar que o sentimento de paz (leia-se "bem viver") está intrinsecamente ligado ao sentimento de acolhimento social, de unidade, de paridade.
Por outro lado, não é a desigualdade de condições um privilégio dos países considerados subdesenvolvidos, pois vê-se que seus sintomas  ocorrem também, e talvez em escala ainda mais severa, em países ditos de primeiro mundo. Por isso, considero um ponto importante a ser analisado: o foco que tais países dão ao capital refletindo sobremaneira nos seus centros urbanos. Não será necessário analisar o quão rico o país é, mas tão somente o valor que este país confere ao desenvolvimento humano - que deveria ser sua riqueza real, a concretização de seu maior objetivo.
Como consequência, é importante também observar a influência das atitudes do Estado nas atitudes da sociedade, ou seja, se aquele busca a evolução econômica acima de qualquer outra, esta também estará inclinada a fazê-lo - cria-se uma cultura interna, por assim dizer, indicando que a evolução alcançada é constatada pelo quantum de capital agregado o indivíduo tem ou ao menos demonstra ter; a contrário senso, se o Estado prioriza a evolução humana, promovendo meios para o desenvolvimento social, a sociedade, que terá como principal parâmetro de evolução o nível de educação (em sentido amplo), obviamente, também estará mais preocupada e empenhada em buscar tais valores.
Partindo-se do princípio de que grande parte da violência urbana descende de uma situação de desconforto e desconformidade de determinado grupo com os padrões sociais vigentes, pode-se dizer então que seu mais rico alimento é  falta de condições deste grupo para atingir tais padrões, gerando uma sensação de impotência e revolta perante o inalcançável, o que resulta nas mais variadas formas de violência seja contra bens públicos (demonstrando insatisfação com o Estado), seja contra pessoas (chamando atenção para a condição de inferioridade).
Assim como o corpo se manifesta exausto quando atinge um nível de estresse, clamando por mudanças, a situação de violência (e aqui digo não só urbana) clama à sociedade que redefina seus padrões e ao Estado  que redefina suas prioridades, forçando-os a entender que o direito à evolução, à autorrealização e ao bem-estar deve pertencer a todos e não só a determinado grupo.
A sociedade pode e deve colaborar e dar exemplos, mas cabe ao Estado, mandatário de todos, buscar o foco certo com intuito de reverter quadros de injusta desigualdade - e aqui se enquadra o conceito de justiça social. Está nas mãos do Estado a priorização da evolução social como um todo, mormente no que tange à educação - a grande alavanca do progresso em todos os sentidos.
Sim, é verdade que o fortalecimento das redes de relações sociais é uma forte arma no combate à violência, mas não é a única. Para enfrentar um problema tão grave e generalizado como a violência, faz-se necessário o uso de tantas outras armas quantas forem possíveis e, dentre elas, o trato igualitário diante das necessidades básicas e forte investimento estatal para que sejam efetivamente disponibilizadas a todos condições para buscar a realização a que aspiram, ou até mesmo para dar-lhes a possibilidade de aspirar a algo. Mas, acima de tudo, uma mudança de valores, criando uma cultura que realmente seja propícia ao desenvolvimento intelectual, espiritual e físico.
A partir de então a violência poderá até continuar existindo, mas será apenas uma opção... de poucos.