domingo, 30 de outubro de 2011

"Quero Justiça!" (2)


"Mudar é possível" - título da coluna de Lya Luft (revista "Veja" - 26/10/2011) e atualmente a grande esperança acalentada em muitos lugares mundo afora, nas mais diversas situações, pelos mais variados problemas, mas sempre tendo como pano de fundo a desvalorização do ser humano. Governos que administram mal os bens públicos que lhe são confiados, leis ou ações que violam direitos ou que possuem viés de supressão de garantias, crimes cometidos pelas mais imprevisíveis pessoas que deveriam se revelar protetoras, são exemplos de situações que geram a desvalorização do ser humano, criando pari passu o sentimento de injustiça e este, quando atingido seu limite máximo, acarreta inevitável mobilização social - que se dá de acordo com os costumes ou necessidades de cada lugar - em busca por mudanças, elevando-as `a qualidade de "esperança maior".

São palavras da Lya: "Acompanho com certa esperança o movimento, que vai se tornando mundial, de insatisfação com a situação generalizada, com grandes empresas, corporações, bancos e países tendo administrado mal seus recursos e agora dependendo do dinheiro para não decretar falência. E o povo? (...) Queremos algo melhor. Queremos ter orgulho real de nós mesmos e de nossa terra. Queremos honradez e transparência, não a palavra vazia que se torna banal demais, queremos cuidado com o povo, lealdade com bons princípios, nada de promessas vagas (...) Porque não é impossível mudar para melhor, desde que se comece repensando o próprio país e o papel de cada um dentro dele (...) A postura maior tem de ser dos governos, dos líderes, das autoridades, mas cada um, do gari ao senador, pode e deve contribuir para isso, para começar a entender quem somos, que país somos, quem queremos ser, como podemos nos transformar (...).

No centro desse clamor por justiça, por mudanças, encontra-se como pedra angular a postura coerente de cada reivindicante - diante dos fins que almejam devem traçar os meios necessários para alcançá-los e, principalmente, mantê-los, e isto nada mais é que uma questão de postura pessoal, postura esta que só se mostrará eficiente se pautada por princípios éticos, caso contrário, terá apenas o condão de ser a causa da próxima crise e assim sucessivamente...

Já disse Olinto A. Pegoraro que " ... o ser humano tem em suas mãos o seu destino: pode construir-se ou perder-se, dependendo do rumo que ele imprime às suas decisões e ações  ao longo da vida. Aqui intervém a ética como direcionamento da vida, dos comportamentos pessoais e das ações coletivas. Em outras palavras, a ética propõe um estilo de vida visando à realização de si juntamente com os outros no âmbito da história de uma comunidade sociopolítica e de uma civilização..." e conclui afirmando que " a ética é a busca constante do bem humano" e "...alcança-se o bem humano pela prática da justiça. Neste sentido, ética é a prática da justiça, ou, comportamento ético é, antes de tudo, comportamento segundo a justiça."

Pegoraro aponta que "Kant rompe com o esquema de ética das virtudes e consagra a ética das normas, a ética do cumprimento da lei moral, dos deveres pessoais e sociais. Na ética kantiana, a virtude política não é regulada pela virtude da justiça, mas pela virtude do direito. Cabe ao direito compatibilizar o exercício externo da liberdade dos cidadãos. A lei universal do direito é: 'age exteriormente (socialmente) de tal modo que o exercício de teu livre-arbítrio possa coexistir com a liberdade dos outros'.

Partindo-se do princípio que os clamores surgem ou porque estão legitimados pelo caráter de representatividade impresso nas autoridades ou pela necessidade de que passem a ter esse caráter -  movimento mundial considerado pelos especialistas como irreversível e que tem como forte exemplo a "primavera árabe" -, deve-se saber exatamente qual é o caráter dos presentes ou futuros representados, isto porque os representantes, por excelência, são uma amostra ainda que muito sintetizada, de seus representados e, diante dos erros daqueles, deve-se perguntar se não seriam os mesmos erros que cometeria um destes ao tomar lugar no poder. Há que se pensar suficiente e sinceramente nisso, para que críticas não sejam vazias, para que injustiças não sejam praticadas rotineiramente, para que haja uma coerência social na busca por soluções, evitando uma deformação geral de condutas.

Nesse sentido, deve-se pensar em cada um como detentor verdadeiro de poder e que, diante deste autorreconhecimento,  o indivíduo seja capaz de realizar diante de poucos o que realizaria diante de muitos e, com isto, encontre sua parcela de contribuição para o bem comum e a coerência entre atos e idéias - "as pessoas que praticam a justiça querem viver em estruturas sociais justas" diria Pegoraro. E legítimas estão para reivindicá-las, por conclusão lógica.

Não seriam esses pontos importantes a resgatar o verdadeiro valor do ser humano?