sábado, 1 de março de 2014

Valores da Obediência



Estava meditando sobre o significado da palavra “obediência” e os valores que contém. Percebi que algumas pessoas se assustam com ela e até questionam se não é uma expressão pesada, que traz a ideia de falta de liberdade, repressão de vontades. Tudo fruto de pouca reflexão para perceber que a obediência é o que nos mantém vivos. Tais pessoas chegam a substituí-las por outras palavras que em tese seriam mais amenas.
Fui buscar os significados no dicionário.
Segundo o Michaelis:
Obedecer  o.be.de.cer (lat vulg boediscereinc de oboedirevti e vint 1 Submeter-se à vontade, cumprir as ordens de: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos dos Apóstolos, 5, 29 - trad de J. F. de Almeida). Alguns obedeceram, outros nãovti 2 Estar sob a autoridade de; ficar sujeito a: "Já lhe obedece toda a Estremadura, Óbidos, Alenquer" (Luís de Camões). vti 3 Submeter a vontade a alguma coisa: Manda a civilidade que obedeçamos às suas normasvti 4Cumprir, observar: Obedecer a um regulamentovti 5 Estar ou ficar sujeito a uma força ou influência; ceder: "Leis a que esses fatos obedecem" (Ernesto Carneiro Ribeiro). vti 6 Deixar-se governar ou conduzir por: Este cavalo já não obedece ao freio. Um grande navio e obedece a um pequeno lemevpr 7Ceder à consciência, seguir os ditames da razão ou os impulsos do coração:Obedecer-se a si mesmovtd ant 8 Sujeitar-se à vontade de; cumprir, observar: "Quem me ama (diz Cristo) obedecerá e guardará meus preceitos" (Padre Antônio Vieira). (Na voz passiva, entretanto, é construção modernamente admitida: "A ordem foi obedecida" (Eduardo Carlos Pereira).
Busquei e não encontrei nenhuma negatividade. Percebi que o ser humano tem a capacidade de desvirtuar palavras e as fazer parecerem assustadoras, quando na verdade são belíssimas. Vejamos alguns exemplos:
Um filho, desde pequeno, precisa ser obediente aos pais, pois ele instintivamente sabe que deles depende sua vida. Os laços afetivos e a relação de confiança natural entre pais e filhos faz com que estes creiam que aqueles o submetem para seu próprio bem. Submissão e respeito, portanto, são intrínsecos à própria sobrevivência, especialmente nos mais tenros anos. Mais ainda, significa que as regras são fruto do amor e da preocupação dos pais.
Outro exemplo importante são as regras a que o ser humano se submete para que possa conviver pacificamente em sociedade.  Tais regras não se resumem às leis, limitadas por essência, mas abrangem uma série de condutas que visam em última instância o respeito ao que é do outro, moral e materialmente falando. A obediência, nesta situação, também visa garantir a própria subsistência da espécie humana.
Há também a obediência às “leis da natureza”, como esquecê-las? O desrespeito a tais leis tem trazido muitos danos a todos os seres vivos que habitam este planeta. Fala-se em muitas catástrofes que virão com o tempo, capazes de por em risco a própria vida humana na Terra. Neste caso, também a obediência é fundamental para a sobrevivência.
Sem pretender exaurir os exemplos, pois há inúmeros outros que eu poderia citar, há um que entendo ser também de extrema importância que é a obediência a si mesmo. Pode-se achar estranho à primeira vista, mas basta pensar que na busca de objetivos, sejam eles da espécie que forem, a pessoa que não cria regras para si não os alcança. Submeter-se a algo que viabiliza a realização de um objetivo, nada mais é que buscar na disciplina a ferramenta do sucesso. A pessoa disciplinada sabe suprimir determinadas vontades em busca de um bem maior, criando dentro de si uma relação de respeito tão grande que aliada à ética se estende aos demais com os quais convive. A obediência passa então a ser sinal de respeito consigo e com os outros.
Trago essas reflexões à luz do equilíbrio, caso contrário o resultado não seria tão positivo. A ponderação é instrumento importante na constatação da legitimidade das ordens. Muito embora o equilíbrio seja fundamental neste caso, o desequilíbrio seria apenas uma maneira de deformar os valores intrínsecos da obediência não sendo, por si só, capaz de tornar tal palavra assustadora ou negativa.
O desequilíbrio e a falta de ponderação tornam qualquer valor um desvalor, mas não desvirtua a essência do que a palavra contem. Não são os exageros das ordens que tornam a obediência uma coisa terrível, pois os exageros sim são terríveis.
A palavra obediência deve carregar consigo valores como amor, respeito, proteção, disciplina, equilíbrio, saúde e sobrevivência. Estar submetido a algo, ser obediente a alguém, cumprir regras não pode ser algo assustador ou revoltante, pois são atitudes necessárias à conservação e evolução da espécie humana.
Na busca de paradigmas para definir uma palavra tão simples, as pessoas se perdem na relativização das coisas, fazendo uma verdadeira confusão de conceitos e sentimentos vividos que vem deformar algo tão belo e importante como é o saber obedecer.
Fica aqui uma proposta para se pensar no conceito das palavras antes de se criar um pré-conceito a respeito delas. A busca do equilíbrio é a chave para abrir a porta certa onde se encontram os verdadeiros valores de certas palavras que, como a obediência, bem mais que palavra, é fonte de vida e de paz.



quinta-feira, 12 de julho de 2012

"Oração aos Moços" (fim) - Rui Barbosa

Por derradeiro, amigos de minha alma, por derradeiro, a última, a melhor lição da minha experiência. De quanto no mundo tenho visto, o resumo se abrange nestas cinco palavras:

Não há justiça, onde não haja Deus.

Quereríeis que vo-lo demonstrasse? Mas seria perder tempo, se já não encontrastes a demonstração no espetáculo atual da terra, na catástrofe da humanidade. O gênero humano afundiu-se na matéria, e no oceano violento da matéria flutuam, hoje, os destroços da civilização meio destruída. Esse fatal excídio está clamando por Deus. Quando ele tornar a nós, as nações abandonarão a guerra, e a paz, então, assomará entre elas, a paz das leis e da justiça, que o mundo ainda não tem, porque ainda não crê.

Este trecho que coloquei como fim, na realidade está antes do trecho anterior. Mas, por concordar que era seu máximo argumento, achei melhor citar por último.

Quão importantes palavras em tão singelo livro, que antes era apenas um discurso a uma turma de formandos.

É notório como a maioria do discurso ecoa até os dias de hoje com tamanha atualidade... Vê-se que poucas coisas mudaram e o fim aqui citado tem em si a visão de um homem que lidou com valores o tempo todo e observou as misérias humanas - a falta de amor de uns pelos outros; a falta de perdão; a falta de honestidade; a falta de ética; a falta de humildade - infelizmente são coisas que ainda, depois te tantas "evoluções técnicas e científicas", predominam nas relações humanas...

O resumo deste tão experiente jurisconsulto, político e cidadão, no trecho acima citado,  deve nos levar a reflexões diárias sobre nossos próprios atos. É para se levar em conta que Rui Barbosa, depois de tantas vivências, diz que sua melhor lição é buscar a presença de Deus. Pensemos...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

"Oração aos Moços" (8) - Rui Barbosa

Exortação ao Equilíbrio e à Ética para os que operam o Direito...

Legalidade e liberdade são as tábuas da vocação do advogado. Nelas se encerra, para ele, a síntese de todos os mandamentos. Não desertar a justiça, nem cortejá-la. Não lhe faltar com a fidelidade, nem lhe recusar o conselho. Não transfugir da legalidade para a violência, nem trocar a ordem pela anarquia. Não antepor os poderosos aos desvalidos, nem recusar patrocínio a estes contra aqueles. Não servir sem independência à justiça, nem quebrar da verdade ante o poder. Não colaborar em perseguições ou atentados, nem pleitear pela iniquidade ou imoralidade. Não se subtrair à defesa das causas impopulares, nem à das perigosas, quando justas. Onde for apurável um grão, que seja, de verdadeiro direito, não regatear ao atribulado o consolo do amparo judicial. Não proceder, nas consultas, senão com imparcialidade real do juiz nas sentenças. Não fazer da banca balcão, ou da ciência mercatura. Não ser baixo com os grandes, nem arrogante com os miseráveis. Servir aos opulentos com altivez e aos indigentes com caridade. Amar a pátria, estremecer o próximo, guardar fé em Deus, na verdade e no bem.

domingo, 8 de julho de 2012

"Oração aos Moços" (7) - Rui Barbosa

Quem é fiel no pouco é fiel no muito...

"Moços, se vos ides medir com o direito e o crime na cadeira de juízes, começai, esquadrinhando as exigências aparentemente menos altas dos vossos cargos, e proponde-vos caprichar nelas com dobrado rigor; porque, para sermos fiéis no muito, o devemos ser no pouco. 'Qui fidelis est in minimo, et in majori fidelis est;et qui in modico iniquus est, et in majori iniquus est.'

(...)

Mas justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta. Porque a dilação ilegal nas mãos do julgador contraria o direito escrito das partes, e, assim, as lesa no patrimônio, honra e liberdade. Os juízes tardinheiros são culpados, que a lassidão comum vai tolerando. Mas sua culpa tresdobra com a terrível agravante de que o lesado não tem meio de reagir contra o delinquente poderoso, em cujas mãos jaz a sorte do litígio pendente."

sexta-feira, 6 de julho de 2012

"Oração aos Moços" (6) - Rui Barbosa

Se não para concordar, serve para meditar...
Se não para viver, serve para sonhar e esperar - ação de quem tem esperança...

"Ora, dizia S. Paulo que boa é a lei, onde se executa legitimamente. Bona est lex, si quis ea legitime utatur. Quereria dizer: Boa é a lei, quando executada com retidão. Isto é: boa será, em havendo no executor a virtude, que no legislador não havia. Porque só a moderação, a inteireza e a equidade, no aplicar das más leis, as poderiam, em certa medida, escoimar da impureza, dureza e maldade, que encerrarem. Ou, mais lisa e claramente, se bem o entendo, pretenderia significar o apóstolo das gentes que mais vale a lei má, quando inexecutada, ou mal executada (para o bem), que a boa lei, sofismada e não observada (contra ele).

Que extraordinário, que imensurável, que, por assim dizer, estupendo e sobre-humano, logo, não será, em tais condições, o papel da justiça! Maior que o da própria legislação. Porque, se dignos são os juízes, como parte suprema, que constituem, no executar das leis - em sendo justas, lhes manterão eles a sua justiça, e, injustas, lhes poderão moderar, se não, até, no seu tanto, corrigir a injustiça.

De nada aproveitam leis, bem se sabe, não existindo quem as ampare contra abusos; e o amparo sobre todos essencial é o de uma justiça tão alta no seu poder, quanto na sua missão. 'Aí temos as leis', dizia o Florentino. 'Mas quem lhes há de ter mão? Ninguém.'

'Le leggi son, ma chi pon mano ad esse?
Nullo' (Dante: Purgatório, XVI, 97-98)"



sexta-feira, 29 de junho de 2012

"Oração aos Moços" (5) - Rui Barbosa

Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas idéias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.

Já se vê quanto vai do saber aparente ao saber real. O saber de aparência crê e ostenta saber tudo. O saber da realidade, quanto mais real, mais desconfia, assim do que vai aprendendo, como do que elabora.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

"Oração aos Moços" (4) - Rui Barbosa

O amanhecer... Sábias palavras! Coisas que sempre tive comigo...

O amanhecer do trabalho há de antecipar-se ao amanhecer do dia. Não vos fieis muito de quem esperta já sol nascente, ou sol nado. Curtos se fizeram os dias, para que nós o dobrássemos, madrugando. Experimentai, e vereis quanto vai do deitar tarde ao acordar cedo. Sobre a noite o cérebro pende ao sono. Antemanhã, tende a despertar.

Não invertais a economia do nosso organismo: não troqueis a noite pelo dia, dedicando este à cama, e aquela às distrações. O que se esperdiça para o trabalho com as noitadas inúteis, não se lhe recobra com as manhãs de extemporâneo dormir, ou as tardes de cansado labutar. A ciência, zelosa do escasso tempo que nos deixa a vida, não dá lugar aos tresnoites libertinos. Nem a cabeça já exausta, ou estafada nos prazeres, tem onde caiba o inquirir, o revolver, o meditar do estudo.

Os próprios estudiosos desacertam, quando, iludidos por um hábito de inversão, antepõem o trabalho, que entra pela noite, ao que precede o dia. A natureza nos está mostrando com exemplos a verdade. Toda ela, nos viventes, ao anoitecer, inclina para o sono. A essa lição geral só abrem triste exceção os animais sinistros e os carniceiros. Mas, quando se avizinha o volver da luz, muito antes que ela arraie a natureza, e ainda primeiro que alvoreça no firmamento, já rompeu na terra em cânticos a alvorada, já se orquestram de harmonias e melodias campos e selvas, já o galo, não o galo triste do luar dos sertões do nosso Catulo, mas o galo festivo das madrugadas, retine ao longe a estridência de seus clarins, vibrantes de jubilosa alegria.

(...)

Tenho, ainda hoje, convicção de que nessa observância persistente está o segredo feliz, não só das minhas primeiras vitórias no trabalho, mas de quantas vantagens alcancei jamais levar aos meus concorrentes, em todo andar dos anos, até a velhice. Muito há que já não subtraio tanto às horas da cama, para acrescentar às do estudo. Mas os sistema ainda perdura, bem que largamente cerceado nas antigas imoderações. Até agora, nunca o sol deu comigo deitado e, ainda hoje, um dos meus raros e modestos desvanecimentos é o de ser grande madrugador, madrugador impenitente.