"Grandes obras na medida em que marcaram profundamente o espírito dos contemporâneos ou o das gerações ulteriores, e pelo fato de que, no próprio momento de publicação, como mais tarde e de certo modo retrospectivamente, marcaram época. Em outras palavras, beneficiaram-se, imediatamente ou não, do que se poderia chamar a ressonância histórica ou a oportunidade histórica. Não significa, em absoluto, que sejam todas intrinsecamente grandes, grandes em si mesmas, em valor absoluto, pela riqueza dos pontos de vista, compreensão serena dos mecanismos individuais e sociais, mestria na construção, clareza e força da expressão (...) mais que uma é imperfeita, irregular, disforme, senão prejudicada pela paixão partidária, e, ao menos em alguns de seus aspectos, -pode acontecer que o seja na própria essência - odiosa. Esses defeitos, porém, ou mesmo essas avarias, não a impediram, pelo contrário, de obter a ressonância histórica, de encontrar a oportunidade histórica, porque tal obra veio corresponder particularmente às preocupações, às paixões políticas do momento ou de um momento. Em sentido inverso, e por infelicidade, pode suceder que a oportunidade histórica deserte obstinadamente uma obra política intrinsecamente grande. (...) Por mais profundamente que uma obra se possa prender, por sua origem, às circunstâncias da História, o que nela se encontra de melhor, de mais vigorosamente pensado e expresso, tende sempre a libertar-se, segundo a palavra do grande romancista inglês Charles Morgan, do "objeto do momento", para alçar, através do tempo, o seu vôo independente." ("As grandes obras políticas de Maquiavel a nossos dias")
Equilíbrio: perseguido pelo incômodo desequilíbrio e mantido pela delicada situação de paz - somente a ponderação de valores pode ser útil nesta transição.
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domingo, 22 de maio de 2016
quinta-feira, 26 de junho de 2014
"Todos desejam a felicidade" - Confissões de Santo Agostinho
Segue um trecho do livro onde Sto Agostinho nos faz questionar parâmetros de felicidade. Digo sempre que se um parâmetro está errado todas as consequências dele também estarão. Bom pensar.
"Portanto, não podemos dizer com segurança que todos queiram ser felizes, pois aqueles que não querem alegrar-se em ti - única felicidade - certamente não querem ser felizes. Ou talvez o queiram, mas "não fazem o que desejariam, porque a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne" (Gl 5,17). Chegam somente até onde podem, e se contentam com isso, porque não podem alcançar o que não desejam com a força necessária para obtê-lo. Pergunto a todos se preferem gozar da verdade ou da falsidade. E todos com firme resolução dizem preferir a verdade, como também afirmam querer ser felizes. Felicidade é o gozo da verdade, o que significa gozar de ti, que és a verdade (Jo 14,6), "ó Deus, minha luz e salvação da minha face" (Sl 26, 1; 41, 6s). Essa felicidade, essa vida que é a única feliz, todos a querem, todos querem a alegria que provem da verdade. Conheci muitos com desejo de enganar aos outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado. Onde conheceram essa felicidade, senão onde conheceram a verdade? Se de fato não querem ser enganados, é porque amam também a verdade. E já que amam a felicidade que nada mais é que a alegria oriunda da verdade, amam certamente também a verdade. No entanto, não a amariam se dela não tivessem alguma noção na memória. Por que não se alegram nela? Por que não são felizes? Porque se empolgam demais com outras coisas, que os tornam infelizes mais facilmente do que a verdade os faria felizes, a verdade que tão debilmente eles recordam. E ainda resta um pouco de luz entre os homens; que eles prossigam, prossigam no caminho, para que a escuridão não os alcance (Jo 12,35).
No entanto, por que a verdade gera o ódio, e o homem que anuncia a verdade em teu nome se torna inimigo daqueles que amam a felicidade, a qual consiste exatamente na alegria oriunda da verdade? De fato, o amor da verdade é tal que os que amam algo diferente querem que aquilo que amam seja a verdade. Amam-na quando ela brilha, e a odeiam quando ela os repreende. Não querendo ser enganados e desejando enganar, eles a amam quando se manifesta, e a odeiam quando os denuncia. Mas a verdade sabe retribuir: como eles não querem ser por ela revelados, ela os denunciará contra a vontade deles, e não mais se revelará a eles. Assim é o espírito humano: cego e preguiçoso, torpe e indecente; deseja permanecer escondido, mas não quer que nada lhe seja ocultado. E sucede-lhe o contrário: ele não se esconde da verdade, mas é esta que se lhe oculta. E apesar de tanta miséria, prefere encontrar alegria no que é verdadeiro, a encontrá-la no que é falso. Portanto, ele será feliz quando, sem obstáculos nem perturbações, puder gozar daquela única verdade, fonte de tudo que é verdadeiro." (grifos meus)
Agostinho, Santo. Confissões. 12ª ed. São Paulo: Paulos, 1984; p.291.
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