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quinta-feira, 26 de junho de 2014

"Todos desejam a felicidade" - Confissões de Santo Agostinho

Segue um trecho do livro onde Sto Agostinho nos faz questionar parâmetros de felicidade. Digo sempre que se um parâmetro está errado todas as consequências dele também estarão. Bom pensar.

"Portanto, não podemos dizer com segurança que todos queiram ser felizes, pois aqueles que não querem alegrar-se em ti - única felicidade - certamente não querem ser felizes. Ou talvez o queiram, mas "não fazem o que desejariam, porque a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne" (Gl 5,17). Chegam somente até onde podem, e se contentam com isso, porque não podem alcançar o que não desejam com a força necessária para obtê-lo. Pergunto a todos se preferem gozar da verdade ou da falsidade. E todos com firme resolução dizem preferir a verdade, como também afirmam querer ser felizes. Felicidade é o gozo da verdade, o que significa gozar de ti, que és a verdade (Jo 14,6), "ó Deus, minha luz e salvação da minha face" (Sl 26, 1; 41, 6s). Essa felicidade, essa vida que é a única feliz, todos a querem, todos querem a alegria que provem da verdade. Conheci muitos com desejo de enganar aos outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado. Onde conheceram essa felicidade, senão onde conheceram a verdade? Se de fato não querem ser enganados, é porque amam também a verdade. E já que amam a felicidade que nada mais é que a alegria oriunda da verdade, amam certamente também a verdade. No entanto, não a amariam se dela não tivessem alguma noção na memória. Por que não se alegram nela? Por que não são felizes? Porque se empolgam demais com outras coisas, que os tornam infelizes mais facilmente do que a verdade os faria felizes, a verdade que tão debilmente eles recordam. E ainda resta um pouco de luz entre os homens; que eles prossigam, prossigam no caminho, para que a escuridão não os alcance (Jo 12,35).
No entanto, por que a verdade gera o ódio, e o homem que anuncia a verdade em teu nome se torna inimigo daqueles que amam a felicidade, a qual consiste exatamente na alegria oriunda da verdade? De fato, o amor da verdade é tal que os que amam algo diferente querem que aquilo que amam seja a verdade. Amam-na quando ela brilha, e a odeiam quando ela os repreende. Não querendo ser enganados e desejando enganar, eles a amam quando se manifesta, e a odeiam quando os denuncia.  Mas a verdade sabe retribuir: como eles não querem ser por ela revelados, ela os denunciará contra a vontade deles, e não mais se revelará a eles. Assim é o espírito humano: cego e preguiçoso, torpe e indecente; deseja permanecer escondido, mas não quer que nada lhe seja ocultado. E sucede-lhe o contrário: ele não se esconde da verdade, mas é esta que se lhe oculta. E apesar de tanta miséria, prefere encontrar alegria no que é verdadeiro, a encontrá-la no que é falso. Portanto, ele será feliz quando, sem obstáculos nem perturbações, puder gozar daquela única verdade, fonte de tudo que é verdadeiro." (grifos meus)


Agostinho, Santo. Confissões. 12ª ed. São Paulo: Paulos, 1984; p.291.

sábado, 1 de março de 2014

Valores da Obediência



Estava meditando sobre o significado da palavra “obediência” e os valores que contém. Percebi que algumas pessoas se assustam com ela e até questionam se não é uma expressão pesada, que traz a ideia de falta de liberdade, repressão de vontades. Tudo fruto de pouca reflexão para perceber que a obediência é o que nos mantém vivos. Tais pessoas chegam a substituí-las por outras palavras que em tese seriam mais amenas.
Fui buscar os significados no dicionário.
Segundo o Michaelis:
Obedecer  o.be.de.cer (lat vulg boediscereinc de oboedirevti e vint 1 Submeter-se à vontade, cumprir as ordens de: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos dos Apóstolos, 5, 29 - trad de J. F. de Almeida). Alguns obedeceram, outros nãovti 2 Estar sob a autoridade de; ficar sujeito a: "Já lhe obedece toda a Estremadura, Óbidos, Alenquer" (Luís de Camões). vti 3 Submeter a vontade a alguma coisa: Manda a civilidade que obedeçamos às suas normasvti 4Cumprir, observar: Obedecer a um regulamentovti 5 Estar ou ficar sujeito a uma força ou influência; ceder: "Leis a que esses fatos obedecem" (Ernesto Carneiro Ribeiro). vti 6 Deixar-se governar ou conduzir por: Este cavalo já não obedece ao freio. Um grande navio e obedece a um pequeno lemevpr 7Ceder à consciência, seguir os ditames da razão ou os impulsos do coração:Obedecer-se a si mesmovtd ant 8 Sujeitar-se à vontade de; cumprir, observar: "Quem me ama (diz Cristo) obedecerá e guardará meus preceitos" (Padre Antônio Vieira). (Na voz passiva, entretanto, é construção modernamente admitida: "A ordem foi obedecida" (Eduardo Carlos Pereira).
Busquei e não encontrei nenhuma negatividade. Percebi que o ser humano tem a capacidade de desvirtuar palavras e as fazer parecerem assustadoras, quando na verdade são belíssimas. Vejamos alguns exemplos:
Um filho, desde pequeno, precisa ser obediente aos pais, pois ele instintivamente sabe que deles depende sua vida. Os laços afetivos e a relação de confiança natural entre pais e filhos faz com que estes creiam que aqueles o submetem para seu próprio bem. Submissão e respeito, portanto, são intrínsecos à própria sobrevivência, especialmente nos mais tenros anos. Mais ainda, significa que as regras são fruto do amor e da preocupação dos pais.
Outro exemplo importante são as regras a que o ser humano se submete para que possa conviver pacificamente em sociedade.  Tais regras não se resumem às leis, limitadas por essência, mas abrangem uma série de condutas que visam em última instância o respeito ao que é do outro, moral e materialmente falando. A obediência, nesta situação, também visa garantir a própria subsistência da espécie humana.
Há também a obediência às “leis da natureza”, como esquecê-las? O desrespeito a tais leis tem trazido muitos danos a todos os seres vivos que habitam este planeta. Fala-se em muitas catástrofes que virão com o tempo, capazes de por em risco a própria vida humana na Terra. Neste caso, também a obediência é fundamental para a sobrevivência.
Sem pretender exaurir os exemplos, pois há inúmeros outros que eu poderia citar, há um que entendo ser também de extrema importância que é a obediência a si mesmo. Pode-se achar estranho à primeira vista, mas basta pensar que na busca de objetivos, sejam eles da espécie que forem, a pessoa que não cria regras para si não os alcança. Submeter-se a algo que viabiliza a realização de um objetivo, nada mais é que buscar na disciplina a ferramenta do sucesso. A pessoa disciplinada sabe suprimir determinadas vontades em busca de um bem maior, criando dentro de si uma relação de respeito tão grande que aliada à ética se estende aos demais com os quais convive. A obediência passa então a ser sinal de respeito consigo e com os outros.
Trago essas reflexões à luz do equilíbrio, caso contrário o resultado não seria tão positivo. A ponderação é instrumento importante na constatação da legitimidade das ordens. Muito embora o equilíbrio seja fundamental neste caso, o desequilíbrio seria apenas uma maneira de deformar os valores intrínsecos da obediência não sendo, por si só, capaz de tornar tal palavra assustadora ou negativa.
O desequilíbrio e a falta de ponderação tornam qualquer valor um desvalor, mas não desvirtua a essência do que a palavra contem. Não são os exageros das ordens que tornam a obediência uma coisa terrível, pois os exageros sim são terríveis.
A palavra obediência deve carregar consigo valores como amor, respeito, proteção, disciplina, equilíbrio, saúde e sobrevivência. Estar submetido a algo, ser obediente a alguém, cumprir regras não pode ser algo assustador ou revoltante, pois são atitudes necessárias à conservação e evolução da espécie humana.
Na busca de paradigmas para definir uma palavra tão simples, as pessoas se perdem na relativização das coisas, fazendo uma verdadeira confusão de conceitos e sentimentos vividos que vem deformar algo tão belo e importante como é o saber obedecer.
Fica aqui uma proposta para se pensar no conceito das palavras antes de se criar um pré-conceito a respeito delas. A busca do equilíbrio é a chave para abrir a porta certa onde se encontram os verdadeiros valores de certas palavras que, como a obediência, bem mais que palavra, é fonte de vida e de paz.



sábado, 3 de março de 2012

Evitar o erro é humano.

Hoje ouvi um comentário muito interessante sobre o erro que me levou a algumas reflexões e gostaria de compartilhar com meus visitantes.

O que pensamos sobre os erros?
Quando são nossos, temos uma tendência a imediatamente buscar uma argumentação que o justifique para nós (principalmente) e para os outros - ainda que saibamos que isto não modificará sua natureza negativa.
Quando os erros são praticados pelos outros, temos uma tendência a sempre julgá-los conforme nossas próprias verdades, confrontando tais erros com aquilo que acreditamos serem acertos. Não é nossa primeira atitude a de buscar alguma justificativa para eles.
Desta forma, se pensarmos bem, podemos concluir que não encaramos os erros como uma coisa natural - se nossos, justificamos; se dos outros, julgamos - nunca ficamos indiferentes a eles - o que seria próprio se fossem da natureza humana, como: respirar, pensar, sentir, comer, enxergar, falar, ouvir, caminhar, crescer, envelhecer... Nada disso é questionável, salvo por alguma disfunção, pois tudo faz parte da natureza humana. Então, porque temos o costume de dizer que "errar é humano"?
Errar é humano?
Se a resposta for positiva, além de justificar nossos próprios erros deveríamos justificar os erros dos outros naturalmente. Mas não. E isso se deve às consequências negativas dos erros, impossíveis de serem ignoradas por nós e pelos outros. Acredito que muitas vezes ficamos a repetir assertivas que ouvimos sem fazer os devidos juízos de valor sobre as mesmas. Até porque incomoda questionar tal frase - tão aliviadora...
Mas meu convite não é para o conforto, mas para uma meditação crítica que nos leve a uma melhor qualidade de vida.
Seres humanos e erros coexistem, de fato. No entanto, ambos não se integram.
Seres humanos foram feitos para o acerto, para a perfeição e sua busca é o que nos torna mais sadios.
A correção dos erros é o  que nos faz ser melhores colaboradores para tudo que vivemos e tudo que queremos viver. Corrigir erros produz uma cadeia de acertos.
Acertos fazem evoluir a tecnologia, auxiliam novas descobertas, previnem acontecimentos desagradáveis, produzem melhores resultados em tudo.
Quando nos integramos aos erros, dizendo que errar é humano, estamos certificando nossa total incapacidade de viver em plenitude a natureza humana.
Se prestarmos atenção aos demais animais da natureza, observaremos que seus "erros" são justificados por seus instintos e por sua irracionalidade.
A nós, seres humanos, foi dada a racionalidade - a capacidade de ponderar razões, valorá-las, controlá-las. Nossos instintos são subjugados pela nossa racionalidade. E a racionalidade vai se aperfeiçoando pela prática e pela importância que a ela conferimos.
A racionalidade é para o ser humano o que a bússula (ou GPS dirão os mais modernos) é para o navegador - sem ela não se atinge o fim almejado.
Errar é desumano.
Sinto dizer... Errar é algo que não se coaduna com nossa natureza, é algo artificial. O erro não existe por si só, não nasce com a gente. O erro é o produto artificial criado pelas nossas incapacidades/irracionalidades temporárias - e todas o são - contra as quais devemos agir argutamente, até que o deixem de ser, pelo exercício da inteligência, da racionalidade.
Não estou conclamando ninguém a uma viagem ao impossível. Ao contrário, estou convidando a todos para uma mudança de paradigma em que o erro deve ser visto como algo distinto da natureza humana e, por isso, assumido, corrigido e, acima de tudo, evitado.
Evitar o erro, isso sim, é humano. 

Já diria o gênio, Albert Einstein: "Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe provando o contrário."

Aproveito também para trazer uma pequena e interessante citação do Bem-aventurado Tito Brandsma, mártir, carmelita holandês (1881-1942), em "Convite ao heroísmo, na fé e no amor".

Muitas vezes ouvimos dizer que vivemos tempos maravilhosos, tempos de grandes homens. [...] É compreensível que haja quem deseje que se erga um chefe forte e capaz. [...] Essa espécie de neo-paganismo [o nazismo] considera toda a natureza como uma emanação do divino [...]; acredita que há raças mais puras e mais nobres que outras. [...] Daí vem o culto da raça e do sangue, o culto dos heróis do próprio povo.


Partindo de uma ideia tão errónea, essa maneira de ver pode conduzir a erros capitais. É triste ver quanto entusiasmo e quantos esforços são postos ao serviço dum tal ideal, falso e sem fundamento! Contudo, podemos aprender com o nosso inimigo. Com a sua filosofia mentirosa, podemos aprender a purificar o nosso próprio ideal e a melhorá-lo; podemos aprender a desenvolver um grande amor por esse ideal, a suscitar um imenso entusiasmo e mesmo a disponibilidade para viver e morrer por ele; a fortalecer a coragem para o incarnar, em nós próprios e nos outros. [...]