sábado, 18 de abril de 2015

"Mergulhar de cabeça"

As borboletas, segundo uma fábula árabe, se reuniram, certa noite, na ânsia de conhecerem a natureza do fogo. Confabulavam: alguém deverá explicar-nos como é, realmente, o fogo. Uma delas prontificou-se a ir até o castelo e, de longe, à distância, via a chama de uma vela.
Voltou e referiu, tanto quanto pôde, as impressões que lhe ficaram. Mas a borboleta-rainha, que presidia a reunião, julgou-as insuficientes.
- Nada sabes sobre o fogo, sentenciou.
Partiu uma outra borboleta, mais velha e experiente, penetrou no castelo, chegou a tocar na vela, sentiu o calor do fogo e, voltando também deu suas impressões. Mas também foi reprovada pela rainha.
- É pouco, muito pouco. É preciso mais!
Partiu, então, uma terceira, mais jovem, ébria do desejo de saber como seria, realmente, o fogo. Pousou sobre a chama, abraçou-a com suas asas, fez-se uma só com ela, até tornar-se totalmente vermelha e incandescente. Quando a borboleta-rainha, à distância, assim a viu totalmente transfigurada, totalmente luz e calor, disse:
- Esta conseguiu saber o que queríamos. Ela, só ela, pode dizer-nos o que é o fogo.



Como borboletas, todos querem saber: O que é a vida? Não é, sem dúvida, uma questão para discursos, mas uma aventura para experiências. Não basta chegar perto dela, nem mesmo tocá-la respeitosamente. É preciso mergulhar em seu curso, sentir seu calor, amar seu mistério, aceitar seu abraço, ter sua paixão e deixar-se queimar por sua chama. Só quem assim procede pode falar, incandescentemente, sobre ela.


(Neylor J. Tonin, "Eu amo Olga e outra histórias")