terça-feira, 29 de outubro de 2013

MEU DIREITO À DECEPÇÃO

Tenho percebido uma onda pessimista muito grande por aí. Volta e meia ouço alguém dizer: “as pessoas se decepcionam porque esperam muito das outras”, ou “não confie tanto, você pode se decepcionar” ou, ainda, “não acredito na polícia, nos políticos, na política, na Justiça”. Por essas e outras resolvi falar o que penso e dizer que me decepciono com essas frases, porque se o ser humano não acreditar como poderá mudar o que lhe desagrada?
Sim, eu me dou o direito à decepção. Definitivamente, prefiro me decepcionar do que desacreditar das coisas e das pessoas. Tudo pode ser diferente se aprendemos a nadar contra a correnteza e a questionar as percepções de massa para termos nossas próprias respostas. Me recuso a permitir que concluam por mim, pois não delego a ninguém a escolha dos meus caminhos.
Me recuso a deixar de acompanhar políticos que admiro ou aos quais dou meu voto, porque poderiam não ser tão honestos e empenhados em seus compromissos como penso. Muitas vezes eles estão lá esperando a força daqueles que acreditam no seu trabalho, buscando incentivo em declarações mais positivas a seu respeito, o que deixamos de fazer por pessimismo ou ignorância. Prefiro me alegrar com eles, ainda que venham me decepcionar adiante – como saberei?
Me recuso a não dar crédito a quem já errou demais. Canta Frejat: “E com os que erram feio e bastante, que você consiga ser tolerante...” O ser humano que erra e busca acertar, goza dos mesmos privilégios do ser humano que age corretamente, mas começa a errar. Tudo pode mudar. Prefiro olhar com admiração os que buscam acertar, pela coragem de tentar e de quebrar seus próprios paradigmas, ainda que me decepcionem com novos erros.
 Me recuso a aceitar que os relacionamentos tem que obedecer a uma regra geral de não esperar muito do outro. Esperar é a atitude de quem tem esperança. E só tem esperança aquele que gosta e acredita no outro e em si. Discordo porque me nego a admirar apenas a superfície linda e calma das águas. É necessário conhecer, aprofundar, ainda que isso decepcione, do contrário não é relacionar-se, é enganar-se. Mas só consegue fazer isso quem tem a maturidade necessária para lidar com decepções, força que tem raízes na própria autoestima.
As pessoas estão muito confusas porque criaram uma série de conceitos vagos que elas mesmas não conseguem explicar. Não conseguem explicar porque lá no fundo todos tem esperanças e muitos as reprimem para evitar decepções. Criaram um mecanismo de pré-decepção, como se isso as livrasse de decepções reais e as tornassem mais leves consigo e com a vida. O mundo está repleto destes exemplos.
Quando um político se destaca pela qualidade de trabalho, acham estranho, desconfiam e nem acompanham, quando o que deveriam achar estranho é a falta de qualidade; mas não, isso é o normal, não surpreende, não corre mais o risco de decepcionar – a atitude assinala a pré-decepção.
Quando alguém que sempre procura agir com correção, erra, muitos pensam que um dia isso iria acontecer, pois não seria possível esse alguém viver uma vida inteira de virtudes. Já quando alguém que erra bastante procura acertar, desacreditamos e não buscamos apoiar, pois não seria possível que alguém que erre tanto um dia vá acertar ou queira acertar – é pré-decepção.
Quando não nos entregamos a um relacionamento, na verdade, não acreditamos que realmente possamos vivê-lo. É comum perguntar a alguém se está namorando e a pessoa responder, de olhos arregalados, “não, estamos só nos conhecendo!”. Mas namorar não é isso? Pedir alguém em namoro não é só romance, é demonstrar verdadeiro interesse em conhecer e respeitar aquele que se quer ter, mas essa cerimônia já foi abolida faz tempo. Muitas vezes as pessoas já entregaram seu corpo nos primeiros momentos, mas sequer sabem se poderiam entregar a intimidade ou se o outro quer essa intimidade. Esquecem que um item está atrelado ao outro, forçando uma dicotomia que nunca irá existir, senão para apresentar o vazio que é a ausência de alma no que se faz. Como pode ser natural dividir nosso ser em pedaços e dar somente partes dele? Mas quem não se entrega também não se decepciona – é uma forma de pré-decepção.
Respeito todas as teorias, mas só encontro a lógica desse jeito. As pessoas estão carentes de fé em si, no outro e no que é pleno. Não tenho vocação para sofredora, por isso me dou o direito à decepção. Me decepciono e muito, porque tenho fé. Mas, como diz o ditado: “decepção não mata, ensina a viver”. E o único jeito de viver com qualidade é acreditando que a vida pede mais crédito. Acho a decepção muito normal, é uma condição da existência. O ser humano tem suas nuances e pode ver por um ângulo diferente do outro, valores opostos, dificuldades ocultas... O importante é ser autêntico e verdadeiro consigo e com os outros.
Não vou deixar de dar meu voto ao político que trabalha por ele fazer parte de uma classe “condenada”, pois estaria tirando toda a esperança que ele tem no que faz. Não vou deixar de acreditar em alguém que errou bastante, porque seria difícil ele acertar, pois estaria contribuindo para os próximos erros. Não vou deixar de acreditar no amor, porque dizem que é raro, pois retirar a profundidade dos sentimentos seria condená-lo à extinção.
Sempre achei inteligente o seguinte raciocínio: a decepção não é um problema exatamente de quem se decepciona, de quem se engana. Acreditar não é um erro, já manter em erro quem acredita... Então vem a redentora pergunta: para que carregar um fardo que não é meu? A cada qual cabe o peso de seus próprios atos, pois não há como controlar a conduta de ninguém. Apesar de ser afetada com o erro dos outros, não sou a destinatária final desse peso.
No fim, erra quem decepcionou e não quem acreditou. A contrario senso, quem não acreditou já se enganou, pois usa o subterfúgio imaginário da pré-decepção que boicota a si mesmo e que não traz consigo nenhuma realização legítima.
Numa era em que se roga tantos direitos, felizes aqueles que conseguem dizer:
Viva meu direito à decepção!