sexta-feira, 28 de junho de 2013

Revolução de 1964 - parte III

"COMÍCIO DA CENTRAL E A ASSEMBLÉIA NO AUTOMÓVEL CLUBE

Convocou-se, 13 de março de 1964, um grande comício, na Central do Brasil, sugestão do PCB, a fim de assegurar o ambiente espetacular para o lançamento das mensagens-estopins.

O Presidente, cumprindo a sua parte no humilhante espetáculo, declarou:

"Não receio ser chamado subversivo pelo fato de proclamar e tenho proclamado e continuarei proclamando em todos os recantos da Pátria a necessidade, trabalhadores, da revisão da atual Constituição... Essa Constituição atual, trabalhadores, é uma Constituição antiquada..."

Anunciou, em seguida, o envio de mensagens radicais ao Congresso Nacional, incluindo a encampação das refinarias particulares, a reforma agrária e outras.

Desempenhou, destarte, o papel prometido aos comunistas. Em torno do palanque, guardado por soldados do exército, a massa humana, trazida em trens gratuitos e ônibus especiais, aplaudia, sem o saber, a comunização da Pátria, agitando bandeiras vermelhas e cartazes alegóricos, ridicularizando os gorilas do exército. Difícil encontrar, na história do Brasil, cena mais degradante. Jamais um Presidente da República cedera tanto aos inimigos da democracia.

Poucos dias mais tarde, um grupo de marinheiros indisciplinados, liderança do Cabo comunista Anselmo, revoltou-se, agitada reunião, no Sindicato dos Metalúrgicos. Tropa do exército cercou o edifício e, após horas de confabulações e indecisões, prendeu os insurretos que sem reação, conduzidos ao quartel do Batalhão de Guardas. João Goulart ordenou que fossem libertados e demitiu o Ministro da Marinha.

O Presidente da República, 30 de março, compareceu a uma assembléia, cerca de dois mil sargentos, no Automóvel Clube. Assistiu passivamente em companhia de alguns chefes militares, aos discursos inflamados que atentavam contra a hierarquia e a disciplina militar.

O comício da Central do Brasil e a cerimônia do Automóvel Clube, previstas no cronograma de golpe-de-Estado, planejado pelo Presidente, em conluio com os comunistas nas gestões de formação da Frente Popular. O primeiro destinava-se a desmoralizar o Congresso, e a segunda, a criar a dissenção entre a oficialidade e os sargentos, para neutralizar a capacidade de reação militar. João Goulart julgava que as forças armadas, assim, enfraquecidas, não poderiam deixar de atender as ordens  de seu dispositivo militar, formando pelos altos comandos com ele identificados.

Um episódio imprevisto comprometeu o diabólico planejamento: rebelião dos marinheiros no Sindicato dos Metalúrgicos. O ponto realmente delicado e decisivo, esse acontecimento: ordem presidencial para libertação dos marujos presos no Batalhão de Guardas.

A presença de Hércules Corrêa e outros comunistas nos quartéis para verificar o cumprimento da ordem do Presidente, e a passeata vexat´roia e afrontosa que se seguiu, nas ruas do Rio de Janeiro, com marinheiros desuniformisados, carregando dois almirantes nos ombros, tudo isso atingiu violentamente os brios militares de oficiais, sargentos e soldados, ferindo a sensibilidade e a dignidade das forças armadas.

O Partido Comunista, na antevisão da vitória, tão próxima, perdeu a tradicional observância das regras do trabalho clandestino nas quais é, em geral, inflexível. Dizia-se, abertamente que, a partir de 1.º de maio, o Brasil, comunizado. A crise econômica, marcada por inflação desenfreada, era ingrediente favorável à situação revolucionária. Todos os meios de comunicação, escritos e falados, veículos de exacerbação subversiva. O Governo Goulart, orientado por oportunismo inconseqüente, tolerava esse clima de gravidade progressiva. Ao sentir-se incapacitado de solucionar os problemas, procurou associar-se ao progresso, imaginando garantir a sobrevivência política. Tão nítida a idéia de que o Brasil seria entregue ao governo socialista, que inúmeros adesistas começaram a alardear simpatia e tendências ao socialismo, certos obteriam um futuro salvo-conduto. Em Pernambuco, Miguel Arraes mandou confeccionar milhares de uniformes para a futura milícia popular, acondicionados em invólucros, em que se imprimia o símbolo da  foice e martelo. Fazia-se, claramente, a propaganda comunista, nos quartéis, igrejas, universidades, sindicatos, repartições públicas, em todos os lugares, em todos os momentos. Os que se opunham ao avanço bolchevista, afastados e perseguidos.  O chamado anticomunismo passou a ser considerado como paixão doentia de alienados, despercebidos do inexorável caminho do socialismo.

Em documento posterior à Revolução, uma autocrítica, Esquema para Discussão, editado, ainda em 1964, o Partido Comunista confessou: 

"Incorremos em grave subestimação da força do inimigo e não estávamos preparados para enfrentar um golpe de direita."

"Acreditávamos em uma vitória fácil através de um simples pronunciamento do dispositivo de Goulart, secundado pelo movimento de massas."

"Absolutizamos a possibilidade de um caminho pacífico e não nos preparamos para enfrentar o emprego da luta armada pela reação."

DIAS DECISIVOS PARA A DEMOCRACIA

O que se passou no Brasil, fins de março de 1964, repercutiu intensamente sobre a paz e sobre os destinos da democracia no mundo inteiro. Muitos não perceberam até hoje esse expressivo significado. Se o nosso país tivesse adotado, naquela época, uma linha comunista, possivelmente o solo brasileiro, converter-se-ia em campo de luta fratricida violenta e toda a América Latina sofreria as influências de uma conjuntura, cujo fim, imprevisível.

A reação desencadeada contra o império da subversão e da desordem, dominante no Brasil, demonstrou que grandes reservas morais jaziam, latentes e inconformadas, no seio da população e, em particular, das forças armadas. Despertadas pelas ameças evidentes, sublimaram-se.

A marcha do comunismo parecia avassaladora. O poder de contentação democrático afigurava-se impotente. O exército denotava divisionismo enfraquecedor. As manifestações da democracia tipicamente defensivas. Vozes isoladas surgiam aqui e ali no Congresso e em meios militares. Alguns governos estaduais, raros por sinal, opunham-se àquele estado de coisas. Grupos de militares e civis responsáveis confabulavam visando principalmente a acompanhar os acontecimentos e projetar atitudes, adotadas, na hora crítica. Foram, todavia, os acontecimentos de março, iniciados com o Comício da Central do Brasil, que precipitaram a reação. Decisões, tomadas nos últimos momentos. Escasseavam as ligações entre os grupos conspirativos."        

 (a continuar)